O Jornal de Borda 08 chama-se Água Vermelha. Ele foi construído ao longo de quatro encontros no SESC Ipiranga, entre novembro e dezembro de 2019 no curso Publicação- Memória no Espaço de Tecnologia e Arte.
Água Vermelha, edição especial Ipiranga
de Jornal de Borda n. 08, ISSN 23593954,
dezembro de 2019.
Concepção e edição: Fernanda Grigolin
Projeto gráfico: Gabriela Brancaglion
Revisão: Lígia Marinho
Capa e mapas: Nara Coló Rosetto
Textos: Laura Torelli, Mariana Molina e
Zilá Strada
Tipografia: Luce Fabbri, de Laura Daviña.
Agradecimentos: Ipiranga Feelings, Sebo
Pura Poesia, Suzete Coló Rosetto, Laura
Daviña, Orides Cezaretto, Eduardo Arpassy,
Karina Francis Urban e Paulo Silveira.
Fontes: Álbum de família de Vanessa
Frederico; Álbum de família de Gabriela
Brancaglion; Arquivo do Estado; Arquivo
17; Arquivo Edgard Leuenroth – AEL/IFCH
– Unicamp; Cedem/Unesp; Cinemateca
Brasileira; Quando a cidade era mais gentil,
do professor Martin Jayo; São Paulo in foco;
Sou Aquela Mulher do Canto Esquerdo do
Quadro, pesquisa de Fernanda Grigolin.
Referências:
Ecléa Bosi. Memória e sociedade: lembranças
de velhos. Companhia das Letras, 1983;
Michel de Certeau. A invenção do cotidiano
I: artes de fazer & II: morar, cozinhar. Vozes,
2012; Dicionário Online de Tupi; Eduardo
Victorio Morettin. Um apóstolo do modernismo
na Exposição Internacional do Centenário:
Armando Pamplona e a Independência Film.
Artigo, 2012; Amir El Hakim de Paula. São
Paulo 1917: Os operários fizeram história…
E também geografia. In: Clayton Peron
Franco de Godoy; Lucas Tadeu Marchezin &
Rodrigo Rosa da Silva. A greve geral de 2017:
perspectivas anarquistas. Biblioteca Terra
Livre, 2017; Irene da Silva Pedro. Lembranças
das raízes, 2014; Margareth Rago. Inventar
outros espaços, criar subjetividades libertárias.
Editora da Cidade, 2016; Raquel Rolnik. A
cidade e a lei. 3. ed. Studio Nobel, 2003, p.
242 & Cada um no seu lugar, São Paulo,
início da industrialização: geografia do poder.
São Paulo, 1981. Dissertação (Mestrado
em Arquitetura), Faculdade de Arquitetura e
Urbanismo, Universidade de São Paulo, 1981.
Abaixo o editorial, escrito por Fernanda Grigolin:
Editorial
Aprendi a escutar bem antes de tagarelar. O dom de ouvir foi muito útil para saber de histórias que nunca
entraram nos livros que líamos na escola, mas que me formaram como pessoa. Nas rodas de conversa na porta do prédio ou nos arredores do Parque da Independência soube da Greve de 1917, soube das mortes de operários, soube das casas pagas à prestação com muito custo, soube que as fábricas eram muitas e o bairro cheirava à fuligem.
Meu avô foi trabalhador braçal, era um dos homens fortes que carregavam no lombo papéis para o fluxo de impressão de uma gráfica. Começou nisso aos quarenta anos e ficou até os sessenta. Foram duas décadas levando nas costas folhas e folhas que viraram páginas com poesia ou com textos comportados ao status quo. Nunca saberei ao certo se algum poema de Ana Cristina César foi antes papel carregado por seu Luís Grigolin. O que sei é que ele, meu avô, acessava meu universo infantil muito mais que qualquer outro adulto. Falava dos passarinhos, entendia pelo som quem eles eram, e o seu contar da vida na roça era o mantra diário na minha infância. Eu aprendi a plantar roseiras com seus ensinamentos. Seu Luís chorava quando sentia
vontade. Tinha frases das quais nunca esqueço: “dinheiro é só um pedaço de papel”, “quem fala demais, fala muita besteira”; uma que me marcou muito foi dita uma vez quando assistia a uma reportagem sobre um pai que havia matado um filho friamente, meu vô ficou muito nervoso e disse: “não mato nem passarinho, nunca mataria uma filha”. Subia a Bom Pastor de bicicleta numa época em que não era chique ser ciclista, bike era meio de transporte com classe social demarcada: a baixa.
Seus amigos eram de várias origens, o dono da lotérica, o zelador do prédio, o tipógrafo. Tinha também o Miguel, que vinha de vez enquando para eles conversarem. Seu Augusto também aparecia às vezes e tocava o interfone, minha mãe o chamava de atleta, pois ele corria no Parque sempre e usava uma regata azul-marinho com listrinhas azuis-celestes. Depois descobri que Augusto era colecionador de livros, seu pai tinha sido anarquista e ele sabia muita coisa. Sabia quem eram os donos das fábricas, os operários e por que muita coisa não era dita ou tinha sido esquecida. Visitá-lo era sair com a cabeça cheia de informações, mas minha mãe não conversava comigo sobre aquilo tudo, só a tia Vanda entrava na conversa. Meu vô gostava da amizade
que eu tinha com o Augusto, mas pouco se intrometia na “prosa”.
Fui acumulando histórias por anos e anos. Para ser precisa, por quase duas décadas. Uma hora eu disse:
“chega, ou isso vira uma pesqui- sa de doutorado, ou eu desisto de guardar coisas sobre o Ipiranga”. Na Unicamp, aceitaram a pesquisa, e comecei a escrever. Quatro anos debruçada no Ipiranga, no movimento anarquista da Primeira República e nas mulheres anarquistas brasileiras, mexicanas e argentinas… Sou Aquela Mulher do Canto Esquerdo do Quadro nasceu.
AVERMELHADO
Ipiranga: (tupi) y: água ou
rio + piranga: vermelho
Dicionário de Tupi on-line
O Ipiranga é um bairro formado no início do século XX, apesar de sua história remeter à “independência”.
Naquela época era um ponto de passagem, com casebres esparsos e uma população indígena: os Guaianazes,
maioria morta pelos bandeirantes. O bairro urbanamente se expandiu e passou a existir como tal a partir da instalação da família Jafet, da linha do trem e das fábricas. A primeira fábrica
foi a Fiação, Tecelagem e Estamparia, cuja inauguração é de 1907. No mesmo ano, os ingleses trouxeram sua fábrica de linhas, ativa até hoje: Coats Corrente. Em 1920, o Ipiranga tinha por volta de 12 mil habitantes, e seguramente boa parte vivia nas regiões entre as ruas do Fico e Xavier Curado.
São Paulo foi desenhada em zonas de exclusão e de classe social. Enquanto os pobres viviam próximos às várzeas dos rios, os ricos situavam-se na região da Paulista ou, no caso do Ipiranga, na parte alta próxima ao Museu, local onde os Jafet construíram seus palacetes, por exemplo. Do alto se avista e controla. E no Ipiranga isso é fato notório: da mansão no alto da Rua Bom Pastor se vê (e vigia) a Fiação na Rua dos Patriotas e as casas dos operários, perto do córrego. O geógrafo Amir de Paula possui pesquisa sobre São Paulo e, em um texto de 2017 denominado “Os operários fizeram história… E também geografia” publicado no livro A greve geral de 2017: perspectivas anarquistas, (Biblio-
teca Terra Livre, 2017), comenta:
“Os pobres morando nas regiões de várzeas, industriais, poluídas, ‘anti-higiênicas’ e os ricos nas colinas, na região de ar mais puro, pode-se dizer uma região mais ‘higiênica’ (um desses bairros, Higienópolis, ilustra bem essa ‘fuga’ das elites das regiões mais pobres em busca dos lugares mais ‘salubres’).”
ÁGUA VERMELHA
No ano de 2017 iniciei o envio de projetos ao Sesc Ipiranga, na época enviei um extrato do Arquivo 17 (projeto expositivo sobre a Greve Geral de 1917), depois, em 2018, mandei um projeto de caminhada pelo bairro onde a Mulher do Canto Esquerdo contava a história de onde viveu. Felizmente em 2019 realizamos o projeto Publicação-Memória, que envolveu aulas teóricas sobre publicações, caminhada pelo bairro e todas as etapas de produção, edição e circulação de um periódico. O curso uniu duas vontades antigas: realizar um curso no Ipiranga, devolvendo para o bairro a minha pesquisa de anos e anos, e formar uma equipe editorial presencial para fazermos um jornal, com conversas sobre produção e edição.
O periódico que vocês têm em mãos foi produzido por seis mulheres, em quatro encontros no Espaço de Tecnologia e Arte do Sesc. A pauta proposta foi ao encontro das diversas camadas de memória que construíram o bairro, com suas zonas de afeto, segregação e violência. O afeto pode ser sentido quando se retorna à rua em que se cresceu e ao relembrar do caminho trilhado na vida (como é o caso do texto da Mariana Molina), porém a violência ainda está presente quando se fala de repressão aos operários e aos corpos das mulheres. Ao caminharmos juntas pela rua onde fica o Sesc, contei a todas sobre o Asilo Bom Pastor, criado no final do século XIX. O lugar, um dos primeiros equipamentos de assistência social do bairro, servia para “abrigar” moças que eram consideradas “vergonhosas” para uma sociedade que não entendia liberdade sexual como um
atributo feminino (o assunto foi trabalhado no texto de Lígia Marinho). Na época do asilo, o rio era curvo e co diversos pontos alagadiços. Há u Ipiranga antes e depois da retificação do Tamanduateí e isso é tema aqui, tanto na capa e no mapa feitos por Nara Coló Rosetto quanto na chuva e alagamento ocorridos no Centenário da Independência (retratados no texto de Laura Torelli). Pesquisas de arquivo de documentos e filmes que realizei por vinte anos se juntaram aos álbuns de família de Vanessa Frederico e Gabriela Brancaglion (páginas quatro e cinco).
Água Vermelha é também parte do projeto Jornal de Borda, que existe desde 2015, e, para a parte gráfica, a companheira de viagem desta edição foi Gabriela Brancaglion. O texto que você lê e todos os demais foram revisados por Lígia Marinho, que sentou ao lado de cada autora e conversou sobre seus sujeitos, verbos e predicados empregados.
Leitoras e leitores, aqui está o Água Vermelha para vocês. PDF AQUI